Sambódromo Carioca recebe o terceiro final de semana de ensaios técnicos

Por Redação

A LigaRJ que comanda o carnaval da Série Ouro na Sapucaí, organizará os ensaios técnicos neste sábado (26), a partir das 19h.

Já no Grupo Especial, o horário de início dos ensaios, está previsto para às 20h.

Para o público que pretende assistir aos ensaios técnicos, será necessário comprovar a vacinação contra Covid-19, de acordo com o calendário da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. A comprovação poderá ser feita através do certificado de vacinação digital – disponível no aplicativo ConecteSUS –, caderneta de vacinação ou comprovante de vacinação.

Confira a seguir a programação deste sábado (LigaRJ).

19h – Inocentes de Belford Roxo (B)

20h – Acadêmicos do Sossego (C)

21h – Acadêmicos de Santa Cruz (B)

Confira a seguir a programação deste domingo (Liesa).

20h – Unidos da Tijuca (C)

21:15h – Beija-Flor (B)

22:30h – Salgueiro (C)

Acompanhe tudo aqui no Portal Sambrasil e pelas redes sociais: @portalsambrasil

Seguem as informações sobre as agremiações que farão seus ensaios técnicos neste final de semana.

@LIGARJ

02 B_ INOCENTES DE BELFORD ROXO

SINOPSE DO ENREDO: A Meia-Noite dos Tambores Silenciosos

JUSTIFICATIVA

A Noite dos Tambores Silenciosos, organizada anualmente no carnaval do Recife, é um rito de preservação da tradição afro-brasileira e um grito urgente pela liberdade de credo. Em pleno século XXI, o povo preto ainda encontra dificuldades de dissolver a ordem hegemônica. Vivemos em uma sociedade racista por estrutura, que esconde os reais obstáculos da resistência. Através da louvação aos Eguns, realizada no Pátio do Terço, a partir da meia-noite, os fiéis podem se conectar com o legado de luta de seus antepassados, sabendo que carregam no sangue e no Orí a bravura daqueles que jamais se curvaram ao opressor. Em determinado momento da cerimônia, um casal de pombas brancas, símbolo que carregamos no pavilhão de nossa escola, é lançado no ar, representando o clamor por dias melhores. O G.R.E.S. Inocentes de Belford Roxo desfila no intuito de amplificar esse pedido. O samba estende a bandeira em reverência ao maracatu. Somos múltiplos retalhos de um mesmo estandarte, cultura afro em movimento. A palavra que vem de nós tem peso e fundamento. Sob o comando de nossos mestres, o som ensurdecedor dos tambores irá ressoar.

SINOPSE

A noite há de ser infinda. Sob os misteriosos olhos da lua, a corte negra banha o asfalto do São José com suas cores. O céu, com inveja das estrelas que cintilam em cortejo, também ganha o tom da brincadeira. É Recife pulsante! Festejo vivo, baque virado de nação. A alegria, faceira, nos avisa: “Cheguei, meu povo. Cheguei pra vadiar!”. É segunda-feira de carnaval, e nada “promete pra faltar”. De um punhado de versos, se faz uma prece. De um mar de preces, uma loa. As energias ali presentes já conhecem o destino de cada rufada do tambor e os sorrisos vibrantes dos batuqueiros não escondem a ansiedade pelo grande momento. É que, no pátio do terço, o tempo transcende os ponteiros do relógio. Lá, as horas não passam simplesmente feito cortejo, constituem parte de uma roda viva, que arrisca voltas sobre si mesma.

“O baque do maracatu estanca no ar

Das lâmpadas, apaga-se a luz branca no ar

Na sombra donde somem cor, somos um” (Lenine, Carlos Rennó)

Quando cessam os tambores, resta o silêncio das almas dos fiéis. Mesmo insonoras, as vozes de milhares ecoam em um mesmo clamor. Apagam-se as luzes frias do pátio, para que o fogo das tochas acenda a candeia dos espíritos sagrados. Ebó para os ancestrais. Sem o brilho das lâmpadas, os olhos, inundados de fé, enxergam a luz por trás da penumbra. Os estandartes continuam de pé, sob a vigilância de seus reis e rainhas. No véu da meia-noite, são todos filhos de uma mesma nação, regidos pelo som que se principia das mãos dos ogãns. Toque que corta o ar. Eparrei! Grito que rompe o elo entre o orun-aiyê.

“Oyá igbalé ê lari ô!

Oyá igbalé!” (Domínio público)

Mãe dos nove céus, deusa dos mortos, sopro que liga os dois mundos, mostre a direção. Tome todos os espaços. Receba essa oferenda de um povo que sempre buscou por respostas, leve a quem resiste no aiyê a energia dos que já se foram e lutaram por esses caminhos. Quando se vai o corpo, fica o axé: força que une presente e passado, deixando um legado vivo que se ressignifica no grito de cada irmão. Entre as histórias que se encontram ao rés do chão, não existem mais barreiras físicas ou temporais. O som que vibra do tambor é conversa entre corpo e orixá, transe que eleva as preces em comunhão. Pombas brancas atravessam o horizonte levando ao Orun o pedido de paz para o grande senhor: Agô, pai Oxalá! Para que seus filhos sonhem com dias melhores, existem histórias que precisam ser contadas, almas que merecem ser louvadas.

“No chão, na vibração de nossas mãos, somos um

Irmãos na evocação aos eguns” (Lenine, Carlos Rennó)

A ordem de paz se dá em nome de um povo que foi arrancado de sua raiz, e separado em massas sem rosto e nome. O azul do Atlântico carregou sonhos aprisionados, que aportaram na dura realidade da América portuguesa. Em terra firme, o golpe duro da chibata estalava o grito da feroz desobediência. Eles jamais aceitaram os destinos que os senhores lhes deram. Dos rótulos forjados pelo colonizador, os escravizados organizaram uma nova identidade. Nação de quem sentia a mesma dor, nação que compartilhava o ardor da luta.

“Eu vim de Luanda para cá

Com gonguê e atabaque para dançar.

Que barulho é esse ioiô

É nação de preto nagô” (Capiba, Nação Nagô)

O temor do senhor era ver preto organizado. No seio das irmandades, tinha festa africana em pleno altar. Em dia de Nossa Senhora do Rosário, postura veloz: o corpo era livre, só obedecia ao som que estancava do couro do tambor. Batuque para o rei do Congo, escolhido pelos seus súditos, que coroavam um símbolo de representação. As vestes do colonizador tentavam cobrir a epiderme negra, mas não conseguiam esconder o orgulho de quem reencontrava, em novo solo, a mesma raiz. Esperança depositada nas contas do rosário, alento no louvor aos deuses africanos.

“Temos rei, temos rainha,

Temos nosso diretor.

Chama a dama do paço,

Que o maracatu já chegou.” (Toada de domínio público)

Quebradas as correntes, restaram as amarras sociais. Da lágrima de quem deu a vida por libertação, talhou-se o estandarte a ser empunhado pelas ruas do Recife. Em nome da herança, maracatu se fazia nação. Enquanto a alta sociedade se esforçava em esboçar os gestos do modo de vida europeu, o toque dos gonguês gritava que a verdadeira realeza era preta. Barulho incômodo aos ouvidos da maquiada classe embranquecida: arruaça, vadiagem, “coisas de negros incivilizados”. A repressão das autoridades tinha cor e endereço, mas a fé do povo de santo era organismo vivo. O temor da elite era ver preto organizado.

“A boneca é de cera

É de cera e madeira” (Toada de domínio público)

Os primeiros versos do Maracatu Elefante eram para Dona Emília, boneca com garbo de princesa, que recebia as honras em seu altar. Sua beleza impressionante não escondia os encantos de Oxum. Símbolo de axé, a calunga era mais que um simples brinquedo, despertava devoção. Contava com a proteção da Dona Santa, matriarca da nação, vestida com trajes da majestade. Tendo Emília sob sua guarda, rainha Santa carregava a energia dos antepassados, e desfilava reverenciando os terreiros de Xangô, até chegar aos pés da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Foi no Pátio do Terço que ela encontrou a luz, para continuar o seu legado no aiyê, de Yalorixá para Yalorixá.

“Ô Mãe Badia

Filha da Oxum

Aê, êô” (Rivaldo Pessoa)

No abebe de sua mãe, Santa enxergou Badia e encontrou nela a extensão de sua força, reflexo de si. Matriarca, negra, mãe de santo, filha de Oxum. Por trás do espelho, estava refletido o poder feminino, as marcas da resistência. Enquanto o povo de santo teve sua fé perseguida, Mãe Badia foi o afago e a direção. Em sua casa herdada das Tias do Terço, firmou as bases do Xangô de Pernambuco. Zeladora dos Orixás, ficou conhecida por cuidar de sua gente. Junto às outras Tias, se reunia em frente à igreja para louvar as vidas dos ancestrais.

“Largo do terço

Quão largo profundo

Bendito é o teu rito

Que eu verso” (Lenine, Carlos Rennó)

O lugar, que um dia já foi ponto de venda de escravos, hoje é ilê para o grande ritual. Pelas mãos de Badia, junto ao sociólogo Paulo Vianna, a pacata reunião das Tias cresceu até se tornar a celebração que é hoje. Milhares de fiéis esperam a meia-noite, para comungar da mesma energia das almas, que os trouxeram até aqui. O baque estanca para lembrar de Santa, Badia, das Tias do Terço, e de todos os líderes, que jamais deixaram de seguir a verdade de sua fé, frente à demonização das crenças. A luz se apaga, para que nunca se esqueçam das vidas pretas silenciadas por um Estado genocida. Após o ritual, os tambores voltam a rufar, para afirmar aos que insistem em se incomodar com o barulho dessas vozes, que a noite há de ser infinda, porque a luta nunca termina. Se hoje nos conectamos com essas memórias é porque precisamos de referências para escrever uma nova história. O som ensurdecedor dos tambores irá ressoar!

FICHA TÉCNICA

Presidente:   Reginaldo Ferreira Gomes

(Presidente de Honra: Rodrigo Gomes)

Carnavalesco:         Lucas Milato

Diretor de Carnaval:

Diretor Geral de Harmonia:

Intérpretes:    Tem-Tem Sampaio, Luizinho Andanças e Leléu

Comissão de Frente: Juliana Frathane

Mestre de Bateria: Juninho

Rainha de Bateria: Natália Lage

1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Douglas Valle e Jaçanã Ribeiro

2º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Paulo Erick e Winnie Delmar

SAMBA-ENREDO: A Meia-Noite dos Tambores Silenciosos

Compositores: Claudio Russo, Tem-Tem Jr, Júnior Fionda, Lequinho, Fadico, Marcelinho Santos, Tem-Tem Sampaio e Altamiro

Intérprete: Tem-Tem Sampaio

Deu meia-noite no pátio do terço

O velho endereço de novos tambores

À meia-noite, vestido nas cores da grande nação

No baque virado, remanso das dores

Ecoam clamores por libertação

A escuridão…

Acorda o silêncio, acende a paz

É o vento de Oyá que evoca Egum

São meus ancestrais sob o axé de Olorum

Ê Luanda, Luandê

O Ilê da minha raça

Sem corrente, nem mordaça

Que prenderam o passado

Ê Luanda, Luandê

Frente à igreja do Rosário

Não há culto proibido

Nem há Deus escravizado

Chama Dona Santa, o espelho de Badia

Pra ver Maracatu estremecer a sacristia

Ora iê iê, ora iê iê

Como é bonito, minha mãe, seu abebe            (bis)

O baque estanca no terço

O chão parece um altar

Clareia, clareia…

É Loa de povo preto

É lua pra vadiar

Vadeia, deixa vadiar…

Onde a nossa voz é estandarte

Eu forjei a minha arte

Na justiça de Xangô

Fé reprimida, vidas perdidas

A noite infinda no axé Nagô

Oyá igbalé Oyá

Sou eu a voz dos inocentes            (bis)

Oyá eparrei Oyá

A alma preta se faz presente

MINI DESFILE: @PORTALSAMBRASIL / @LIGARJ TV  https://youtu.be/mNSArFGMw6M

07 A_ ACADÊMICOS DO SOSSEGO

SINOPSE DO ENREDO: Visões Xamânicas

JUSTIFICATIVA

A Acadêmicos do Sossego apresenta para o Carnaval 2021 o enredo “Visões Xamânicas”. Uma saga épica imaginada entre o presente e o futuro.

A humanidade se encontra exatamente onde grandes profecias xamânicas disseram que chegaríamos: no colapso do planeta provocado por um sistema de ambição e consumo. A falta de percepção da relação entre nossas escolhas éticas e a ação do tempo sobre nossas vidas como coletividade nos trouxe a dilemas pelos quais a natureza nos obrigou a enxergar o tempo como dele deve ser.

Durante todo o processo de evolução, buscamos incontrolavelmente dominar e controlar o tempo, otimizando a produção para alimentar insaciável apetite por uma noção vazia de progresso. Mas quem diz quando o tempo termina? Quem diz que produzimos muito em pouco tempo quando não temos esta dimensão de início, meio e fim? Os avanços construídos sobre conquistas territoriais ambiciosas baseadas em mortes de humanos de culturas diferentes conduziu a história global. E foi precisamente essa a visão dos Pajés.

Progredir sem se preocupar com nosso papel em cadeia dentro de um organismo vivo e complexo que é a Terra e com os diferentes seres que habitam o planeta é um ato de egoísmo contra as demais peças do sistema do qual fazemos parte. Fomos impelidos a parar os ponteiros deste organismo. Nós somos a grande doença e, conscientes como a natureza nos permitiu ser (no seu próprio ritmo de tempo), devemos nos transformar na cura.

Ao produzir mais uma vez cultura voltada à preservação dos povos tradicionais e dar voz às suas histórias baseadas em teias de saberes ancestrais de valores atemporais, surgirá um novo carnaval na Acadêmicos do Sossego. Consciente do seu papel cultural e social, a escola do Largo da Batalha fará a cidade cantar melodias de esperança e consciência para seu povo.

A narrativa é livremente inspirada em relatos de David Kopenawa, o grande xamã Yanomami, nos quais relata suas visões sobre passado, presente e futuro da Terra.

Construímos a heroíca jornada de um pajé que, em um grande alinhamento espiritual com os xamãs do mundo inteiro, fará uma pajelança para trazer aos olhos do mundo a cura desta Terra em que vivemos. Por fim, como na canção imortal de Caetano Veloso, “aquilo que se revelará aos povos surpreenderá a todos, não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio”: preservar a natureza, respeitar a sabedoria ancestral e aprender as lições sagradas de povos tradicionais nos conduzirá à construção de um futuro saudável para nossa Terra adoecida.

Um novo dia virá. “Virá que eu vi!”

Autores do Enredo: André Rodrigues e Willian Tadeu

Este enredo é também uma homenagem aos amigos pesquisadores João Gustavo Melo e Diego Araújo que defendem e divulgam para os que querem ouvir sobre a importância das narrativas dos bumbás de Parintins que ano

após ano transformam um pequeno ponto da amazônia em porta-voz para o mundo conhecer as histórias dos povos tradicionais nativos do Brasil com recorrentes mensagens de preservação da vida indigena e da natureza desta terra que vivemos.

SINOPSE

Em um clarão de terra entre a imensidão de copas de árvores que cobrem a mata, fumaças se contorcem feito o corpo do pajé. Ecoam os sons da noite que se repetem como cânticos e, entre os cheiros de infusões de ervas, o grande curandeiro viaja a outros planos da consciência atendendo o chamado dos Xapiris, ancestrais que trazem aos seus olhos as sagradas visões xamânicas.

É tempo de sonhar viajando por planos cósmicos para encontrar suas raízes. As folhas, as madeiras, a terra, o som da água, tudo é difuso e surreal até deparar-se com a revelação da terra corroída, o fim dos tempos em pleno estado de acontecimento.

Quando Omana criou o primeiro mundo, este era extremamente frágil e foi soterrado com o próprio céu. Dos escombros desse desabamento fantástico, brotaram nas costas do primeiro céu as formas de vida do nosso mundo em uma Terra mais forte, rígida e duradoura. É sobre este cenário que construímos nossas vidas: lares e estradas, ocas e edifícios, tabas e cidades. E é esse novo mundo que estamos destruindo.

Os olhos cegos de ganância dos homens não-indígenas não conseguem enxergar as fragilidades do nosso planeta e seus habitantes. Seu tempo de sonho é o do consumo, que despreza a sabedoria ancestral e despreza o próprio tempo. O homem, em busca das lascas de antigas estrelas, vive comendo o chão procurando seu brilho. As vigas da eternidade se esburacam e a queda do céu pode acontecer a qualquer momento. A iminência da tragédia espalha o caos por um mundo que adoece, manchado de óleo, revestido de plástico, sufocado pela poluição, manchado pelo sangue dos povos tradicionais. A humanidade criou inventos extraordinários e imaginou futuros fantásticos, mas esqueceu de medir as consequências de suas ambições.

Os Xapiris revelaram que por muito tempo os grandes sábios que se comunicavam com o mundo ancestral puderam alertar a população mundial para nos salvar desse apocalipse que vivemos levando a mensagem de salvação. Passar adiante suas lições para a sobrevivência do planeta foi a grande missão dos pajés. Agora, em sua jornada épica pelo mundo dos sonhos, nosso Xamã evoca um grande alinhamento espiritual entre xamãs de todo mundo. Unam-se os sacerdotes de cura da África e os peles-vermelhas com olhos de águia! Juntem-se os filhos da grande serpente arco-íris e os homens do gelo que ecoam a ancestralidade nas peles brancas feito nuvem! Venham os caboclos de fala direta! Que se faça a grande pajelança universal para que o céu não desabe sobre nossas cabeças! Renasçam como os guerreiros dourados! A floresta brada o grito de salvação para esta gente que não ouve o saber ancestral.

E então, “quilo que se revelará aos povos surpreenderá a todos, não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio” A cura vem da floresta, a dor do mundo cessará quando ouvirem o que eles têm a dizer. A cultura de destruição será suplantada pela harmonia com a natureza e todas as formas de vida. Aos povos tradicionais, seu território. À tecnologia, a energia renovável. O homem devorador de terra renascerá como o grande semeador.

É assim, ouvindo os Xapiris pela fala do pajé, que abraçamos o sonho do amanhã. Não com o delírio utópico de um novo planeta, mas curando este que é o único que temos. De nosso Largo, vamos à batalha! Arcos e flechas, penas e cocares, corpos e almas se levantam pela preservação da natureza e das culturas de milhares de etnias indígenas do Brasil.

Se o silêncio é o próprio apocalipse, devemos entoar cantos de esperança. O respeito à sabedoria é a salvação. Não esperaremos o extermínio da última nação indígena. Na apoteose do êxtase xamânico, “m índio descerá de uma estrela colorida e brilhante” Cada um de nós será índio, pois é índio um pedaço de nós. Somos filhos de uma mesma dor e dos mesmos cantos de amor.

Quem contará as histórias de um mundo que se auto-destrói quando ele não existir mais?

Um novo dia virá. “irá que eu vi!”

FICHA TÉCNICA

Presidente:   Hugo Júnior

Carnavalesco:         André Rodrigues

Direção de Carnaval:         Alexandre Dias e Marcelo Chaves

Direção Geral de Harmonia:         Ygor Silva e Carolina Ribeiro

Intérprete:      Nino do Milênio

Comissão de Frente:          Jardel Augusto Lemos

Mestre de Bateria:   Laion Jorge

Rainha de Bateria:  Celi Costa

1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira:       Fabrício Pires e Giovanna Justo

2º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira:       Hugo César e Anderson Morango

Autores do Enredo: André Rodrigues e Willian Tadeu

SAMBA ENREDO: Visões Xamânicas

Compositores: Diego Tavares (in memoriam), Marcelo Adnet, Junior Fionda, Marcelinho Santos, Thiago Martins, Yago Pontes, Diego Nogueira, Rod Torres, Deodônio Neto, Gabriel Machado e Paulo Beckham

Intérprete:      Nino do Milênio

Pajé voltou para contar que o céu desabou

Fumaça traziam sagradas visões

Na dança ancestral me revelou

Das ervas evocou os guardiões

Xapiri, me perdoe do que nós fizemos de Urihi

Xapiri ensinou a cuidar e vamos destruir

A razão ancestral evocou sua voz

Só não deixe o mundo cair sobre nós

Omama escondeu na floresta

Pedaços do céu contra os olhos da ambição                    (bis)

A ganância sente fome

E o mal que nos consome mata o homem e o quinhão

Xamã cura a terra da guerra da gente

Dos mitos que deixam a tribo doente

Enfim descerá de uma estrela um índio guerreiro

De pele vermelha caboclo flecheiro

Okê okê arô… Odé odé

A Jurema que desmata tem a cura e o axé

Okê okê arô… Odé odé

“Apesar de você” eu ainda mantenho a fé

Eu não largo da batalha… Sossego

Nossa aldeia nunca falha… Auê auê                    (bis)

Sacudindo a poeira das cinzas vou renascer

MINI DESFILE: @PORTALSAMBRASIL / @LIGARJ TV https://youtu.be/-htDx_uSk2U

04 B_ Acadêmicos de Santa Cruz       

SINOPSE DO ENREDO: Axé, Milton Gonçalves! No Catupé da Santa Cruz

AXÉ, MILTON GONÇALVES!

No Catupé da Santa Cruz.

Hoje a coroa da Acadêmicos de Santa Cruz gira majestosa e carregada de axé. E busca nas entrelinhas do passado as origens da minha história. E assim, abençoada pelo meus ancestrais, resgata minhas raízes de baobá e as entrelaça com as raízes dos cafezais da cidade onde nasci.

Que o seu movimento, feito o mágico rodar de uma baiana, abra os portais do tempo e liberte a magia que transforma o banzo em canto de saudade, reacendendo em minha alma, a infância vivida em Monte Santo, nas Minas gerais. E assim me faça reviver a coroação dos reis de Congo diante do altar enfeitado da Igreja Matriz de São Francisco de Paula, de onde partiam em cortejos que celebravam a realeza preta com a dança do Catupé e os cantos ritmados pelos bombos, caixas de guerra, agbês e gonguês, e que agora desfilam nas ruas das minhas lembranças.

Que sua representatividade, talhada em majestoso ébano, seja o elo de união entre a África de lá e a África de cá, manifestadas na sabedoria dos pretos mais velhos, tão maltratada e desrespeitada no árduo trabalho escravo nas lavouras de café.

Que reluza feito o sol refletindo no mais puro metal e ilumine as trilhas e caminhos que me levaram à são Paulo da esperança e, guie a minha jornada de luta por melhores condições de vida e dignidade, porque ainda carrego em minha essência, a crueldade que marcou o lombo dos ex-escravos no período pós-abolição e que, empurrou os negros das regiões escravistas para as grandes cidades, desnudando os desafios da adaptação determinados pela cor da pele.

Que seja um farol a me orientar nesse mundo novo e desconhecido, mas repleto de velhos preconceitos. E que essa luminosidade me revele, na sala de projeção, aquele lugar mágico que ao apagar as luzes, fazia desaparecer a dolorosa realidade da discriminação e das privações. E não me permita esquecer que ali, onde heróis, soldados, romances, comédias, tudo vinha como um remédio contra a dureza da realidade que me cercava, e que me fazia fantasiar e sonhar que um pedaço de madeira, era uma espada e eu, o próprio rei Artur.

Que seja uma bússola a orientar a minha embarcação por um oceano de palavras e livros, e assim me leve à descobrir mundos que eu não conhecia. Vista-me com a armadura do conhecimento para que eu possa vencer o dragão da ignorância e me libertar dos porões da miséria e da senzala do preconceito. Que a minha fortaleza seja sempre uma livraria para que eu nunca deixe de sonhar, porque a minha história, é a história de um sonhador. E eu quero seguir nessa utopia teimosa que sempre me fez acreditar que havia um outro mundo no qual a vida era muito melhor.

Que acolha, em seu movimento, os bons ventos do destino que mudam livremente de direção e pregam suas peças. E iluminada, como as estrelas que também mudam de lugar no céu, mas não perdem o poder de guiar, acenda as mágicas luzes da ribalta e modifique definitivamente a minha existência, para eu sempre me lembrar da “ Mão do Macaco” abrindo as cortinas que que me fizeram mergulhar no universo dos espetáculos e sentir a arrebatadora experiência de ser um soldado de chocolate ou um sábio preto velho, num piscar de olhos.

Que resplandeça em sua realeza preta, a força dos que não desistem do combate, e seja o meu equilíbrio entre as lutas na arena da vida e a minha vida no Teatro de Arena. Prometo seguir sem Black-Tie, mas com a determinação de Zumbi, o guerreiro de Palmares.

Que ela, cintilante, aqueça meu espírito de bom malandro, tal qual o sol que brilha sobre a Guanabara, porque o Rio teimou em me chamar para um chopp à beira mar. Hoje, confesso que sou um mineiro maneiro, com alma carioca, rubro negro e amante da batucada e sei que esse é o “Grande Momento”. E que, certamente, pelo menos por uma temporada, serei o “Rei do Rio’, e até mesmo, uma “Rainha Diaba”, como símbolo definitivo da inquietação de um negro em movimento constante.

Graças a Deus e aos meus Orixás, eu venci. E aqui não cabe nenhuma arrogância, mas é bem verdade que eu nunca aceitei o “lugar do negro” que a sociedade havia demarcado.

Eu venci como irmão da coragem que sempre fui. E então, “Bem-Amado”, ganhei asas e voei com a magia consagradora que a telinha me permitiu, feito pontos de luz de liberdade.

Hoje, num momento de grande emoção, vejo com muito orgulho duas bandeiras que se unem, marcadas pela negritude. Uma carrega as cores verde e branco da Acadêmicos de Santa Cruz, a outra é bordada com as cores da luta pela igualdade que eu sempre empunhei.

Mas essa história não se encerra aqui, porque as minhas memórias continuarão a ser construídas, enquanto minha obra seguir falando em prol dos negros e de todos os brasileiros ao mesmo tempo.

E assim, será!

Axé!

Cid Carvalho.

FICHA TÉCNICA

Presidente: Moysés Antônio Coutinho Filho (Zezo)

Carnavalesco: Cid Carvalho

Diretor de Carnaval: Ricardo Simpatia

Direção Geral de Harmonia: Elson Bragança e José de Souza Barros (Cobrinha)

Intérprete: Roninho

Comissão de Frente: Marcelo Chocolate e Marcello Moragas

Mestre de Bateria: Riquinho

Rainha de Bateria: Larissa Nicolau

1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Carlos Eduardo (Mosquito) e Roberta Freitas

2º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: José Mauro e Mayara Bombom

SAMBA ENREDO: Axé, Milton Gonçalves! No Catupé da Santa Cruz

Compositores: Samir Trindade, Júnior Fionda, Elson Ramires e Rildo Seixas

Intérprete: Roninho

Banzo ê Banzo ê vai embora

Ê saudade grande feito monte santo

Santifica o filho mais um rei do Congo

Meu retinto peito bate em ritmo de bombo

Tenho a força do axé ginga de Catupé

Agbê, gonguê rufam caixas de lembrança

Em São Paulo da esperança

Cor da pele fez lição

Nego véio ensinou

A talhar a… vida

Na coragem e na luta

Dessa gente perseguida

Sonho meu!

De Erê Ganga, Zumbí

Tantas páginas e livros

E miragens pela frente

Sonho meu

Desde cedo aprendi

Que o verbo resistir

Se conjuga no presente

Vencer as feridas (açoite cultural)

Arenas da vida (senzala social)

E ser bem amado (a luta ao fim servil)

Persistir no Brasil

É sangue de Palmares

Nas veias emoção, nos palcos meus altares

Orixá da nação

Espelho a cintilar a arte

Um santo, a cruz da liberdade

A Santa Cruz é liberdade

Preto rei! Preto é rei

Nesse Rio de Oxossi fiz o meu gongá

Preto rei! Preto é rei

Saravá Milton Gonçalves na coroa de Oxalá

Obá obá obára ôôô…

Obá obá obára ôôô…

MINI DESFILE: @PORTALSAMBRASIL / @LIGARJ TV https://youtu.be/iO-CQNdkr7w

@LIESA_RJ

04 B_ Unidos da Tijuca

SINOPSE DO ENREDO: Waranã – A Reexistência Vermelha

Tupana, criador das boas coisas do mundo, reinava no alto do céu na forma de A’at, o sol, enquanto seu irmão oposto, Yurupari, sob a proteção de Waty, a lua, regia as más na escuridão. Assim, as ações entre os dois deuses estabeleceriam o equilíbrio cíclico de Monã, as forças cósmicas geradoras do universo.

Contam que três irmãos, os varões Yucumã e Ukumã’wató e a bela Anhyã-Muasawê, viviam em Nusokén, uma floresta encantada, abundante, onde até as pedras poderiam falar.

Anhyã-Muasawê era a guardiã, a dona de Nusokén, pois detinha o conhecimento das plantas medicinais. Não existia folha que ela não conhecesse o poder. De tão bonita e habilidosa, todos os animais de Nusokén se enamoraram por ela, o que mergulhava seus irmãos no ciúme.

Certo dia, uma cobra verde tomada de amor usou o perfume de uma flor para atrair Anhyã-Muasawê e com apenas um toque em seu pé a fez engravidar. Quando Yucumã e Ukumã’wató descobriram a gravidez indesejada por eles, possuídos pela má energia de Yurupari, expulsaram a irmã e tomaram para si o controle do paraíso Nusokén, a proibindo de voltar. Ela e a criança que nasceria.

Anhyã-Muasawê vai para uma mata distante dar à luz a Kahu’ê, o kurumin mais bonito e alegre que já existiu. Kahu’ê era uma criança prodigiosa, dizem que começou a tagarelar bem cedo. Olhos vivos, atentos para as muitas perguntas que brotavam de sua curiosidade inocente. Fartava-se dos frutos que a floresta com bom grado lhe dava, mas havia uma iguaria que não era permitida a ninguém e que Kahu’ê se apetitou: a castanha da castanheira sagrada de Nusokén. Aquela, primeira, brotada das patas de uma onça e que estava sendo vigiada pela cotia e pelo macaco, Hanuã-Xuin, a mando dos irmãos Yucumã e Ukumã’wató.

Chegando lá, o kurumin arteiro subiu na árvore e saciou a fome até o cair da noite como se dono fosse daquele fruto proibido. Na verdade, era mesmo herdeiro daquelas terras, já que sua mãe seria senhora de Nusokén por direito.

Ao saberem pelos vigias da violação da castanheira sagrada, os tios de Kahu’ê, obsediados pelo espirito da inveja, invocaram Yuyrupari, que se transformou em uma serpente terrível e tirou a vida do pequeno índio.

Anhyã-Muasawê ouviu o grito de longe, correu em socorro a seu filho, mas não pôde evitar o pior. Uma tristeza súbita tomou aquela terra. O mal de Yurupari parecia ter vencido ao exterminar a existência de Kahuê quando os raios de Tupana rasgaram as nuvens. Ao tocarem o solo, falaram ao coração da mãe ferida que aquela maldade se tornaria bênção. Anhyã-Muasawê se transformou num pássaro, levou seu filho para os arredores do rio Maráw, enterrou os olhos do kurumin e os regou com suas lágrimas.

O olho esquerdo plantou em terras amarelas, do qual nasceu uma planta que não prestava. Era o Waraná-Hôp, o falso guaraná. O olho direito, plantado em terras pretas, gerou o Waraná-Sése, o verdadeiro guaraná. Com ele, Anhyã-Muasawê fez um elixir mágico para longa vida ao povo que floresceria das entranhas de Kahu’ê, enterrado embaixo de uma Abiu’rana. Seu ajudante, o passarinho Karaxué, cantava sua mais bela melodia quando Mary-Aypók nasceu do corpo de Kahu’ê. Era o “originador”, o primeiro Mawé. Tupana deu a ele de presente a língua que só era falada pelos seres de bem que o acompanhavam, chamada Sateré, a lagarta de fogo.

O segundo Mawé nascido da criança enterrada foi Wasary-Pót, o irmão gêmeo do “originador”.

Os irmãos cresceram. Mary-Aypók se casou com Ahút-Piã, a filha do papagaio, e concebeu o significado da palavra Mawé, o papagaio falante. Wasary-Pót desposou com Hano’onapiã’hop, filha da arara-piranga, e seus descendentes dariam as mais belas penas para adornar o povo que surgia.

O bendito kurumin Kahu’ê, fruto da união entre a ancestralidade indígena e os animais, renascia em uma raça de pele vermelha como a cor da pele do sagrado Waranã. Estava iniciada a nação Sateré-Mawé, o povo do guaraná. Descendente do fruto que cura as doenças das almas cansadas, dos fracos, que fortalece e devolve a força, a juventude. Revive.

Organizaram-se em clãs, construíram identidade e desenvolveram ritos e mitos regados a guaraná, pintados e gravados com branco do barro taguatinga, preto do jenipapo e vermelho urucum no remo sagrado Puratig.

Do bastão de guaraná ralado criaram o Çapó para beber nas festas, pajelanças e no Waymat, onde as tucandeiras iniciam os jovens para a vida adulta como símbolo de renascimento sob o comando dos Tuxauas.

Porém, não se engane em pensar que Yurupari descansou de sua maldade predatória, que deixou a vida na floresta em harmonia. Ele se fez ressurgir ao longo do tempo em colonizadores, missionários religiosos enviados às aldeias, caçadores, garimpeiros e madeireiros ilegais, grileiros de terras… Pelos desmatamentos e queimadas, os filhos-demônios de pele clara de Yurupari seguem semeando o caos em nome do capetal.

Mas os filhos do guaraná, peles vermelhas do Brasil, são predestinados, pois apenas povos sábios, de espiritualidade elevada, são capazes de reexistirem encantados pelas matas, acaboclados nos terreiros onde bradam sua força e encontrarem com os espíritos infantis de erês e ibejadas que, quando “chegam”, gostam de tomar guaraná.

Assim, completando o ciclo da eterna renovação, enfim o curumim Kahu’ê é elevado ao paraíso prometido Mawé, Nusokén, ou à Jurema, ou à Aruanda, quando na gira as crianças bebem seu guaraná e vão brincar.

Elas são a prova que o espírito do amor é muito maior que o ódio semeado por Yurupari.

Ele não vai vencer. Ele nunca irá nos exterminar.

Yiurupari jamais triunfará.

Jack Vasconcelos

FICHA TÉCNICA

Presidente: Fernando Horta

Carnavalesco: Jack Vasconcelos

Diretor de Carnaval: Fernando Costa

Diretor Geral de Harmonia: Fernando Costa

Intérprete: Wantuir e Wictoria Tavares

Comissão de Frente: Sérgio Lobato

Mestre de Bateria: Casagrande

Rainha de Bateria: Lexa

1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Phelipe Lemos e Denadir Garcia

2º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Matheus André e Lohane Lemos

SAMBA-ENREDO:  Waranã – A Reexistência Vermelha

Autores: Anderson Benson, Eduardo Medrado e Kleber Rodrigues

Intérpretes: Wantuir e Wictoria Tavares

Alto céu

De Tupana e Yurupari

Duas forças que vão fluir

A energia de Monã

Que equilibra o bem e o mal

Um lugar onde as pedras podiam falar

Onde irmãos desfrutavam

A beleza singular

Anhyã, bela e habilidosa

Mas a cobra ardilosa usa a flor pra lhe tocar

E nasce Kahu’ê, o curumim

De olhos alegres… sempre assim

Presença tão breve

A ingenuidade sucumbe à maldade

Renasce Kahu’ê, o curimim

Seus olhos alegres não têm fim

Pois o bem é maior, vai reexistir

Vida ligeira, passageira

Plantada no solo da pura emoção

De pele vermelha, os frutos de uma nação

Vida inocente, vira semente

E ao som de uma ave a cantar

Floresce imponente o povo do guaraná

E se a cobiça e o fogo chegarem na aldeia

Deixa a força Mawé ressurgir

E sorrir quando o sol reluzir

Nesse dia eles vão temer

E o amor vai vencer

Erê, essa mata é sua… É sua

Erê, vem provar doce mel… Doce mel

Waranã da Tijuca

Vem brincar no Borel

VÍDEO Making Of Oficial: @portalsambrasil @riocarnaval  https://youtu.be/yBY1zFaHvOs

06 A_ Beija-Flor de Nilópolis

SINOPSE DO ENREDO: Empretecer o Pensamento é Ouvir a Voz da Beija-Flor

Razão de cantar feliz é poder nos reconhecer através das histórias que revelam a nossa essência. REPRESENTATIVIDADE é fazer parte de uma bandeira de arte e de luta que é exemplo para o nosso povo. É como gostamos de nos ver refletidos. Quem vê a fragilidade do voo de um beija-flor nem sequer imagina quantas vezes o coração bate e qual o tamanho do esforço para chegar à flor. É assim que se dá a ligação entre a bandeira nilopolitana e o nosso povo. É pela alegria e pelo prazer de brilhar na Avenida que superamos as dificuldades vividas durante o ano para no Carnaval sermos a referência de um Brasil mais africano.

A marca de vencer tantos carnavais já nos fez vestir muitas glórias. Porém, muito mais que isso, acreditamos que nossa sina é a afronta, o debate e a provocação artística. É cumprir todo ano a romaria, da Baixada à Avenida para fazer o povo protagonista e proporcionar o destaque que o Brasil sempre nos negou. Olha em volta, é hora de mais um acerto com a história, nosso povo de novo acordou e só está aguardando razão de cantar feliz o ressoar do som do teu tambor.

Sinopse

Este enredo é de autoria coletiva. Foi escrito pelas mãos, vozes e memórias de cada componente da nossa comunidade.

A imagem do Pensador, a bela estatueta do povo tchowkwe, que habita a região Nordeste de Angola, inspira-nos a levar para a Avenida um enredo sobre a contribuição intelectual negra para construção de um Brasil mais africano. Nossa civilização conhece e respeita os pensamentos esculpidos em mármore greco-romano. Mas por que não talhar os saberes em ébano? Empretecer o pensamento do mundo é dar a toda a humanidade a oportunidade de uma visão diferente e original, com novos caminhos para o futuro, estabelecendo outras rotas possíveis.

Ao longo do tempo, foram grafadas em pedras duras imagens estereotipadas da África como um ajuntamento de sociedades tribais destituídas de pensamentos e tecnologias. Isto nos impede de ver o legado e a diversidade dos povos e refletir sobre a possibilidade de empretecer o conhecimento humano.

Muitas vezes enquadrada no campo do primitivo e do exótico, nossa forma sofisticada de ver o mundo é desvalorizada por estruturas coloniais racistas que desprezam a riqueza intelectual que produzimos.

Por isso, mais do que nunca, é hora de inspirar mentes, trabalhar pelo “reencantamento” de tudo, e talhar em madeira forte nossos saberes, feito sementes espalhadas por soberanos pássaros de ébano.

“No caminho da luz, todo mundo é preto”

(Emicida)

A diáspora do pensamento negro é um jogo de espelhos que faz refletir por muitas e muitas terras, povos e gerações o valor da nossa gente. Um negrume multicor que construiu monumentos em eras gloriosas, e que também passou a sofrer constantes tentativas de apagamento e silenciamento. Mas o legado dos nossos ancestrais persiste nas cores e nas formas que se afirmam pujantes, assim como a saga do nosso povo. Em muitos tons de negro, erguemos totens, esculpimos imagens de adoração de muitas fés, trançamos palha e fibra, entrelaçamos referências, bordamos a geometria das coisas e dobramos o tempo. Como num colar multicor, colocamos nos fios das artes visuais as mais raras pérolas e as contas mais sagradas dos nossos antepassados.

A costura de um tecido de pensamentos sofisticados se dá a partir dos ensinamentos dos antigos para constituirmos a “afrosofia” de hoje. Em memórias transmitidas de geração a geração, somos sujeitos de poder, guiados pelos ancestrais. Produzimos jeitos diversos de pensar o sentido de um mundo plural, mesmo que máscaras brancas sejam colocadas sobre a pele negra. Falamos e escrevemos em bom “pretuguês”, para o mundo inteiro ouvir, o valor das nossas reflexões que se desdobram em ações afirmativas. A voz da intelectualidade altiva e forte se ergue contra as desigualdades, propondo novos caminhos para transformar a realidade em que vivemos. É o levante quilombista em nome de uma sociedade mais justa!

A escrita de nós sobre nós faz emergir uma literatura que não se limita à entronização de heróis coloniais. Nossos personagens são escritos nas frestas, somos filhas e filhos do cotidiano e do épico, da dor e do prazer, dos movimentos sociais e das reflexões coletivas. As fraturas do processo escravocrata se manifestam na inquietação das palavras de azeviche. Imagens “poétnicas” de potência avassaladora, original e amplificadora de sentimentos e revoltas. São faíscas literárias que encandeiam ideias retintas e permitem reescrever mais e mais Brasis.

Sob as luzes – e às vezes sob as sombras – da ribalta, encenamos a liberdade como texto primordial. Nos palcos do Teatro Experimental do Negro, invocamos a energia vital dos antepassados, espelhando a fúria e a brandura das divindades. Alegria e manifestação! Articulações engajadas fazem com que se multipliquem nomes e mais nomes entre a “grande constelação das estrelas negras”. São a essência do vigor dos nossos passos, da expressão maior dos nossos sonhos e dos nossos corpos instruídos de energia e técnica. Somos constante movimento, pois somos filhos de deuses que dançam!

Agora cessem tudo o que antiga musa canta, porque uma flor nasceu no asfalto… E será cortejada por um pássaro de ébano, mestre-sala dos ventos a lufar sementes do samba, criação preta em essência. Filosofia em tambor sincopado que se transformou no maior espetáculo do ayê. Que possamos celebrar a arte que se afirma em cada Carnaval quando uma voz canta e um corpo responde “ao ressoar do som de um tambor”.

Maravilhosa e soberana é a nação que anualmente ritualiza e espalha seus saberes ancestrais. Em Apoteose, vamos elevar nosso cantar feliz a Cabana, o pensador de ébano que, com suas composições e enredos, ajudou a esculpir o Beija-flor no terreiro sagrado do Carnaval.

A ele e todos os ancestrais do samba, dedicamos nosso desfile, exaltando a memória e o trabalho intelectual do povo preto, e evocando o símbolo adinkra do pássaro que, com os pés fincados no chão, olha para trás para poder agir no presente e seguir rumo ao futuro.

Epílogo

A Beija-Flor de Nilópolis, como referência cultural formada essencialmente pelo povo negro da Baixada Fluminense, ao voltar a propor um enredo tendo foco central a intelectualidade negra, reafirma as pautas sociais cujas demandas passam pela defesa do sistema de cotas raciais e pelo cumprimento da Lei 10.639 (atualizada pela Lei 11.645), que trata da obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Repudia ainda qualquer discriminação religiosa contra o nosso povo, reafirmando a laicidade do Estado brasileiro. E, por fim, torna-se mais uma voz a se levantar contra a violência no país, que tem atingido especialmente corpos negros, vítimas do racismo estrutural que vigora no país. Basta! Seus filhos já não aguentam mais!

FICHA TÉCNICA

Presidente:   Almir Reis

(Presidente de Honra: Aniz Abrahão David)

Carnavalesco: Alexandre Louzada

Diretor de Carnaval: Dudu Azevedo

Direção Geral de Harmonia: Simone Sant’Ana e Valber Frutuoso

Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

Comissão de Frente: Marcelo Misailidis

Mestres de Bateria:Rodney e Plínio

Rainha de Bateria: Raíssa Oliveira

1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Claudinho e Selminha Sorriso

2º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: David Sabiá e Fernanda Love

SAMBA-ENREDO: “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”

Autores: J. Velloso (Im Memoriam), Léo do Piso, Beto Nega, Júlio Assis, Manolo e Diego Rosa

Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

A nobreza da corte é de ébano

Tem o mesmo sangue que o seu

Ergue o punho, exige igualdade

Traz de volta o que a história escondeu

Foi-se o açoite, a chibata sucumbiu

Mas você não reconhece

O que o negro construiu

Foi-se o açoite, a chibata sucumbiu

E o meu povo ainda chora

Pelas balas de fuzil

Quem é sempre revistado

É refém da acusação

O racismo mascarado pela falsa abolição

Por um novo nascimento, um levante

Um compromisso

Retirando o pensamento

Da entrada de serviço

Versos para cruz, Conceição no altar

Canindé, Jesus, ô, Clara!!

Nossa gente preta tem feitiço na palavra

Do Brasil acorrentado, ao Brasil que não se cala

Versos para cruz, Conceição no altar

Canindé, Jesus, Ô, Clara!!

Nossa gente preta tem feitiço na palavra

Sou o Brasil que não se cala!!

Meu Pai Ogum ao lado de Xangô

A espada e a lei por onde a fé luziu

Sob a tradição Nagô

O grêmio do gueto resistiu

Nada menos que respeito

Não me venha sufocar

Quantas dores, quantas vidas

Nós teremos que pagar?

Cada corpo um orixá! Cada pele um atabaque

Arte negra em contra-ataque

Canta Beija-Flor! Meu lugar de fala

Chega de aceitar o argumento

Sem senhor e nem senzala, vive um povo soberano

De sangue azul nilopolitano

Mocambo de crioulo: Sou eu! Sou eu!

Tenho a raça que a mordaça não calou

Ergui o meu castelo dos pilares de Cabana

Dinastia Beija-Flor!

VÍDEO Making Of Oficial: @portalsambrasil @riocarnaval    https://youtu.be/w5xAwK0fcJA

03 A_ Acadêmicos do Salgueiro

SINOPSE DO ENREDO: Resistência

Maior cidade escravista das Américas, o Rio de Janeiro foi o palco da assinatura da Lei Áurea, diploma legal que extinguiu a escravidão no Brasil. Abolir o trabalho escravo, porém, não foi suficiente para promover as mudanças tão desejadas por todos nós. Abandonados pelo Império, continuamos sem condições para uma existência decente. Libertos, tornamo-nos prisioneiros da miséria nos cortiços, nas ruas, nos trabalhos precários e na ausência de direitos humanos e sociais básicos. Discriminados e marginalizados, sem cidadania, sem alternativas para uma vida digna, fomos lançados à nossa própria sorte. Excluídos – no dia seguinte, na década seguinte, no século seguinte –, vivemos, até hoje, sufocados.

Hoje, ser preto no Rio de Janeiro e no Brasil (país que tem a segunda maior população preta no mundo) é ter que lutar diariamente por respeito. Lutar para não ceder nem sucumbir à segregação promovida pela sociedade e pelo Estado. É recusar os abusos e a submissão pela ausência de políticas públicas que poderiam promover melhores condições de vida. É não se deixar enganar pela pseudo “democracia racial”, sempre camuflada por hipocrisia, eufemismos ou subterfúgios mal disfarçados.

Aqui, ser preto é, acima de tudo, um ato de RESISTÊNCIA.

E resistir é ter nossa história, antes negada e silenciada, ressignificada e recontada no carnaval, lugar de alegria, mas também de diálogo com o mundo. Ao som dos tambores ancestrais, o Salgueiro foi pioneiro na introdução da temática africana nas escolas de samba. Seguiu na contramão da narrativa “oficial” do país e deu vez e voz aos personagens, heróis e protagonistas pretos. Como um Griot, transmitiu ricas histórias por meio de enredos que revelam a participação da escola no processo de resistência cultural e de luta contra o racismo institucional.

Resistir é plantar um legado nos “chãos” do Rio de Janeiro. Criamos Quilombos, lugares de resistência e insurgência negra, com estrutura politica, econômica e social africana. Revivemos a história nas marcas deixadas na Pequena África, região que se destaca como lugar de acolhimento e também por personagens como as tias baianas festeiras da Praça XI, cozinheiras e Mães de Santo celebradas até hoje pela fantasia e pelo rodopio que as nossas Alas de Baianas exibem. Foram elas que formaram o espaço sociocultural do samba, entendido como extensão dos terreiros de Candomblé.

Resistir é professar nossa fé. Por ela nos unimos nas irmandades religiosas que faziam filantropia por justiça social. Construímos os terreiros de Candomblé, templos que são uma reinvenção do macro universo cultural e religioso trazido do continente africano. Desenvolvemos o Culto Omolokô e criamos a Umbanda, religião afro-brasileira surgida no Rio de Janeiro, que sincretiza elementos do Candomblé, do Espiritismo e do Catolicismo.

Resistir é expressar nossa cultura para manter a continuidade de valores civilizatórios. Com a benção dos orixás, entramos na cozinha, espaço de saber, para alimentar o corpo e a alma. Para transformar alimentos, hábitos e a própria culinária brasileira. Ao som dos atabaques, “compramos o jogo” nas rodas de capoeira e dançamos jongo ou caxambu. Pisamos nos gramados para expulsar os cabelos esticados e o pó-de-arroz que “disfarçavam” a cor da nossa pele. Brilhamos nas passarelas e nas ruas com as formas, símbolos, cores e texturas de nossa moda.

Resistir é fazer arte. Inquietos por representatividade e pela visibilidade que insistem em nos sonegar, criamos nossas próprias narrativas e espaços nas artes cênicas, como o Teatro Experimental do Negro. Assumimos nosso protagonismo e nos fizemos enxergar também por meio da literatura, da dança, das artes plásticas. Espalhamos para o mundo a vocação artística que reside em nós.

Resistir é festejar. É revelar nossa maneira de ser por meio das festas, do modo de celebrar a vida, do entusiasmo que propicia o resgate de nossa identidade e afirmação existencial. Desde o chorinho na Festa da Penha, passando pelas escolas de samba, afoxés e blocos afro. Pelo pagode à sombra da tamarineira, pelo funk carioca e pelo charmoso baile sob o viaduto de Madureira.

Resistir é existir.

É continuar a reverberar a coragem dos nossos heróis contemporâneos de pele preta.

É saber que somos frutos de uma mesma raiz de igualdade, fé, esperança, arte e vida.

É crer que nenhuma luta foi em vão. Que nenhuma luta será em vão.

É persistir no sonho de igualdade para que ele não seja silenciado.

É entender que, juntos, em cada passo e em cada pequena mudança, seguiremos adiante.

E é ter certeza que no dia em que fizermos cair todas as máscaras da discriminação, conseguiremos, enfim, respirar.

Autoria e curadoria: Dra. Helena Theodoro

Carnavalesco: Alex de Souza

Concepção: Eduardo Pinto e Marcelo Pires (Diretoria Cultural)

Texto: Paulo Barros

FICHA TÉCNICA

Presidente: André Vaz da Silva

Carnavalesco: Alex de Souza

Diretor de Carnaval: Alexandre Couto Leite

Diretor Geral de Harmonia: Jomar Casemiro (Jô)

Intérpretes: Emerson Dias e Quinho

Comissão de Frente: Patrick Carvalho

Mestres de Bateria: Guilherme Oliveira e Gustavo Oliveira

Rainha de Bateria: Viviane Araujo

1º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Sidclei Santos e Marcella Alves

2º Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Luan Castro e Natália Pereira

SAMBA-ENREDO:  Resistência

Autores: Demá Chagas, Pedrinho Da Flor, Leonardo Gallo, Zeca Do Cavaco, Joana Rocha, Gladiador, Renato Galante.

Intérpretes: Emerson Dias e Quinho do Salgueiro

Um dia meu irmão de cor

Chorou por uma falsa liberdade

Kaô Cabecilê, sou de Xangô

Punho erguido pela igualdade

Hoje cativeiro é favela

De herdeiros sentinelas

Da bala que marca feito chibata

Vermelho na pele dos meus heróis

Lutaram por nós contra a mordaça

Ê, mãe preta, mãe baiana

Desce o morro pra fazer história

Me formei na Academia

Bacharel em harmonia

Eis aqui o meu quilombo, escola

Ê, Galanga, ê… Rei Zumbi, Obá

Preta aqui virou Rainha Xica

Sou a voz que vem do gueto

Resistência no tambor

Pilão de preto velho eu sou

No Rio batuqueiro

Macumba o ano inteiro

Não nego meu valor, axé

Gingado de malandro

Kizomba e capoeira

Caxambu e jongo, fé na rezadeira

Tempero de Iaiá, não tenho mais, sinhô

E nunca mais, sinhá

Sambo pra resistir

Semba meus ancestrais

Samba pelos carnavais

Torrão amado o lugar onde eu nasci

O povo me chama assim

Salgueiro… Salgueiro…

O amor que bate no peito da gente

Sabiá me ensinou: sou diferente

VÍDEO Making Of Oficial: @portalsambrasil @riocarnaval  https://youtu.be/VoY7kzBL1F0

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CAMINHOS DA HISTÓRIA – Portugal

Por Redação Com sede em Tomar, é especializada em visitas turístico culturais ...

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