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Beija-Flor faz desfile monstruoso visando o título

Por Gilvan Lopes e Anderson Lopes

Fotos: Mariana Barcellos, Marcelo Faria e Adriano Monteiro

Produção: Adriano Monteiro

Suporte remoto: Julia Fernandes e Jack Costa

A escola nilopolitana encerrou o Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial contando um enredo instigador: “Monstro é aquele não sabe amar! Os filhos abandonados da pátria”, convidando-nos a encarar os nosso próprios monstros interiores.

Laíla, Diretor de Carnaval, conversou com o Portal Sambrasil sobre seu enredo: “É uma proposta para que todos enxerguem seus monstros particulares e saibam controlar eles, e assim como o monstro Frankenstein, tenham uma redenção para que possam viver melhor; e, se o cronômetro permitir eu vou fazer uma grande surpresa na avenida junto com a bateria, confiram.”.

Conversamos com o grande Mestre Plínio, um dos comandantes da bateria azul e branco junto com Mestre Rodney: “Vamos pra guerra com 260 ritmistas, vamos fazer bossas integradas ao samba, que é maravilhoso, até para dar mais andamento ao nosso ritmo e ao desfile.”.

Essa é a Beija-Flor, querendo retornar ao pódium principal dos vencedores neste carnaval.

Enredo: “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”

SINOPSE

“Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”

A ficção do monstro do Dr. Frankenstein nos coloca frente a frente à nossa capacidade de repudiar o que é estranho e diferente, de negar amor ao que não compreendemos.

O ser criado em laboratório a partir de pedaços de gente costurados rusticamente, e da ausência de ética e de limites, não foi reconhecido como um semelhante porque possuía aparência anormal e feia e, acabou sendo excluído, repudiado e renegado pelo próprio pai.

A estranha criatura, abandonada, sozinha, incompreendida e entregue a própria sorte, se transformou em anjo caído, revoltado pela falta de amor.

Mas, quem é o verdadeiro monstro nessa estória? A criatura de aparência repugnante, ou o criador, com seu egoísmo, seu orgulho, sua arrogância e seu coração corrompido?

Essa obra vai completar 200 anos, mas tem muito a nos dizer das diversas mazelas que atualmente corroem a integridade moral e espiritual de uma sociedade onde a desigualdade se alimenta do descaso, formando uma geração dominada pelo caos, vitimada pelo abandono e que vive a mercê de seres humanos bestiais que menosprezam tudo e a todos que lhes parecem inadequados e fora dos padrões estabelecidos.

O monstro do Dr. Frankenstein é a nossa realidade invertida, é a nossa culpa escancarada e jogada em nossas caras, mas que da qual fugimos e negamos qualquer responsabilidade. A criatura é o nosso espelho da vida refletindo nossas falhas mais gritantes, nossa falta de amor com o que nos cerca e com o próximo, e o nosso desrespeito às diferenças.

Somos parte de um sistema doentio, gerador de criaturas que falam línguas diferentes e aparentemente indecifráveis para os governantes, e que perambulam incompreendidas e esquecidas pelos becos, ruas e vielas dessa selva de pedra que um dia já foi o paraíso.

Mas, o sonho de uma criança ainda é pintar o futuro em folhas brancas da imaginação e traçar o mundo inteiro na palma da própria mão. Porém o que vemos são crianças abandonadas pelos pais, longe das escolas, vendendo balas nos semáforos ou se transformando em pivetes e disparando balas de armas que cospem fogo e dor. Por sua vez, os filhos jogam os pais idosos em asilos, feito fardos pesados demais, numa espécie de reflexo invertido.

É a carência de amor escancarada pela ausência de opção ou pela falta de pão, levando irmão a matar irmão. São pedaços de família, soltos, desapegados, sem ligação. São retalhos de uma sociedade refém de uma violência cruel que corrói a nossa dignidade e espalha o medo que nos devora a alma em cenas trágicas que passam diante de nossos olhos como um filme de terror, retratando vidas que se perdem num estalar de dedos em cenários reais e angustiantes. São as casas gradeadas, feito fortalezas de proteção, onde temos a sensação que nós é que estamos na prisão, numa banalização do mal, do sofrimento alheio e da própria vida humana, que transforma a luta diária, em luto constante.

São os Cavaleiros do Apocalipse político, camuflados com ternos, gravatas e hipocrisia, cavalgando no lombo da ambição e espalhando a falta de esperança. São as filas, as falhas e falcatruas alimentando saúvas e adoecendo a saúde; são zumbidos perdidos, sem direção, assustando a população e matando o futuro na nação. É a paz escondida na tristeza de cada olhar, na saudade doída dos que se foram, na fatalidade do silêncio dos que já não podem chorar. É o refugiado da seca que ainda não encontrou a terra prometida; é o brasileiro acuado, sem ter para onde fugir. Mas, na delação do “boca de sabão”, certo e errado pode ser apenas uma questão de ocasião.

Será que há salvação?

Será que no final do túnel haverá luz?

Ou será que carregaremos eternamente essa cruz?

Sentado na escadaria, um pedinte estende as mãos implorando esmolas, disputando com terços e santinhos a atenção de quem passa para se ajoelhar diante do altar de ouro; numa encruzilhada adiante, aproveitadores da boa fé despacham oferendas sem axé que servem para aliviar a fome e a sede do morador de rua; enquanto falsos profetas, em templos colossais, cobram dízimos celestiais, perseguem crenças diferentes, sufocam manifestações culturais e fomentam uma espécie de “Guerra Santa”: o sagrado versus o profano, a batucada proibida, a roda de samba coibida, a bebida no boteco; tudo é coisa do “coisa ruim”!

Porém, tudo que se constrói ou se destrói, se começa pela base, porque se não se fortalece a base, toda a edificação estará fadada ao desmoronamento. E a base, a estrutura de uma sociedade é a cultura. É preciso voltarmos às nossas raízes e nos reinventarmos. E se reinventar não significa mudar a essência ou renegar as origens. Reinventar tem um quê de renascimento, de tornar a ser criança, de redescobrir o poder de amar. Somente o amor e a valorização da cultura impedirão que os monstros da nossa sociedade continuem surgindo, se multiplicando e ameaçando o que temos de mais autêntico.

Cabe a nós sambistas, historicamente marginalizados e excluídos, sempre olhados com estranheza e preconceitos, perseguidos pela cor de nossas peles, pelo colorido de nossas roupas, pela nossa fé ancestral e pela nossa batucada, o alerta, a resistência e o protesto. Algumas vezes nos negaram a alma, outras tantas nos deram uma alma demoníaca, mas nunca conseguiram nos calar, silenciar as nossas vozes e os nossos tambores, porque somos das ruas, das praças, dos botecos, somos malandros boêmios e carregamos na alma a alegria que debocha das dificuldades, mas, se for o caso, afogamos as tristezas com uma cerveja bem gelada.

É chegada a hora de juntarmos os retalhos das nossas consciências que deixamos no baú empoeirado do nosso comodismo e costurarmos as fantasias dos abandonados e dos excluídos. Nesse cortejo popular, os verdadeiros monstros da nossa sociedade desfilarão sem máscaras para serem reconhecidos e malhados na quarta-feira de cinzas!

Que a Maria, a nossa Pietá, com seu filho nos braços e a lata d’água na cabeça, seja o retrato da luta de todos que apenas desejam ser amados e respeitados.

Que as ruas voltem a ser o grande tabuleiro da pluralidade da nossa gente, onde as peças dançarão ao som de uma batucada democrática. Que o nosso “rei” que é Momo, que é da folia, que é do povo, junte realeza e “peões”, derrube a “torre” da intolerância e dê um xeque-mate na tristeza. E assim, a Escola de samba e a comunidade, ali costuradas pelo amor a nossa cultura, se tornarão um só corpo novamente e o samba triunfará mais vivo do que nunca.

Que nesse arrastão de alegria, as drags e meretrizes encontrem um amor de carnaval; o velho arlequim nunca desista de beijar a colombina; o malandro continue caindo de paixão pela sedutora cabrocha e o pierrot, levante a cabeça, dê a volta por cima e, dance apaixonado com a passista formosa. Porque o samba é o palco mais democrático da nossa cultura popular e une irmãos de todos os cantos e bandeiras, festejando as diferenças e celebrando a paz sob um céu azul e branco.

Mas, se ainda assim você nos descrimina e não entende o nosso jeito de ser feliz, não nos leve a mal, o monstro é você!

Largue o nosso carnaval!

Afinal, monstro é aquele que não sabe amar!

Comissão de Carnaval: Laíla, Cid Carvalho Bianca Behrends, Victor Santos, Rodrigo Pacheco e Léo Mídia

Libras

Áudio

Enredo: Monstro é aquele que não sabe amar! Os Filhos abandonados da Pátria que os Pariu

Compositores: Di Menor BF, Kiraizinho, Diego Oliveira, Bakaninha Beija Flor, JJ Santos, Julio Assis e Diogo Rosa.

LETRA

SOU EU…

ESPELHO DA LENDÁRIA CRIATURA

UM MOSTRO…

CARENTE DE AMOR E DE TERNURA

O ALVO NA MIRA DO DESPREZO E DA SEGREGAÇÃO

DO PAI QUE RENEGOU A CRIAÇÃO

REFÉM DA INTOLERÂNCIA DESSA GENTE

RETALHOS DO MEU PRÓPRIO CRIADOR

JULGADO PELA FORÇA DA AMBIÇÃO

SIGO CARREGANDO A MINHA CRUZ

A PROCURA DE UMA LUZ, A SALVAÇÃO!

ESTENDA A MÃO MEU SENHOR

POIS NÃO ENTENDO TUA FÉ

SE OFERECES COM AMOR

ME ALIMENTO DE AXÉ

ME CHAMAS TANTO DE IRMÃO

E ME ABANDONAS AO LÉU

TROCA UM PEDAÇO DE PÃO

POR UM PEDAÇO DE CÉU

GANÂNCIA VESTE TERNO E GRAVATA

ONDE A ESPERANÇA SUCUMBIU

VEJO A LIBERDADE APRISIONADA

TEU LIVRO EU NÃO SEI LER, BRASIL!

MAS O SAMBA FAZ ESSA DOR DENTRO DO PEITO IR EMBORA

FEITO UM ARRASTÃO DE ALEGRIA E EMOÇÃO O PRANTO ROLA

MEU CANTO É RESISTÊNCIA

NO ECOAR DE UM TAMBOR

VÊM VER BRILHAR

MAIS UM MENINO QUE VOCÊ ABANDONOU

OH PÁTRIA AMADA, POR ONDE ANDARÁS?

SEUS FILHOS JÁ NÃO AGUENTAM MAIS!

VOCÊ QUE NÃO SOUBE CUIDAR

VOCÊ QUE NEGOU O AMOR

VEM APRENDER NA BEIJA-FLOR

FICHA TÉCNICA

Fundação       25/12/1948

Cores  Azul e Branco

Presidente de Honra  Aniz Abrahão David

Presidente      Ricardo Abrão

Quadra           Rua Pracinha Wallace Paes Leme, 1025 – Nilópolis – RJ

Cep: 26.050-032

Telefone Quadra        (21) 2691-1571 / (21) 2791-2866

Barracão         Cidade do Samba (Barracão nº 11) – Rua Rivadávia Correa, nº 60 – Gamboa

CEP: 20.220-290

Telefone Barracão     (21) 2233-5889

Internet           www.beija-flor.com.br

Enredo 2018   “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”

Diretor de Carnaval:   Laila

Carnavalescos:          Victor Santos, Bianca Behrends, Rodrigo Pacheco, Léo Mídia e Cid Carvalho

Intérprete: Neguinho da Beija – Flor

Mestres de Bateria:    Rodney e Plínio

Rainha de Bateria:     Raíssa de Oliveira

Mestre-Sala e Porta-Bandeira:          Claudinho e Selminha Sorriso

Comissão de Frente:  Marcelo Misailidis